Postagem de jornalista cita exageros da minissérie que está em exibição na plataforma – Foto: divulgação Netlix
Mais uma manifestação surgiu com questionamentos a respeito da minissérie Emergência Radioativa, em exibição na Netflix. Dessa vez, a jornalista Dora Tristão, autora de uma das muitas publicações sobre o acidente com o Césio 137, compartilhou vídeos e comentários a respeito da ficção em seu perfil no Instagram, a maioria em tom de crítica negativa, interpretando situações retratadas com base em sua pesquisa e respondendo comentários.
Uma das observações é quanto à mudança de nomes das vítimas que viraram personagens da ficção, como observou o Diário de Goiás um dia após a estreia da produção. “A série foi inspirada, não é exatamente factual”, atesta ela. Outro ponto, e um dos que despertaram debates em torno dos posts da jornalista, foi a crítica sobre como as pessoas atingidas pela radiação foram retiradas de suas casas após a descoberta da contaminação.
Na série, os físicos, tratados como protagonistas, aparecem conversando calmamente e informando as famílias, agindo em convencimento para saírem. Mas, na vida real, como sempre declararam as vítimas, isso foi bem diferente. Elas deixaram seus lares, pertences e animais de estimação de forma agressiva e sob forte aparato policial.
Entretanto, essas abordagens da ficção foram entendidas em alguns comentários na postagem de Tristão como algo “previsível” diante da incerteza sobre a gravidade do que envolvia essas áreas e as pessoas que ali viviam. Era uma época abalada pela dimensão trágica do acidente nuclear em Chernobyl – ocorrido um ano antes e envolvendo vários elementos radioativos, como o próprio Césio -, e ainda havia desconhecimento nacional sobre o enfrentamento desse tipo de acidente.
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Há o relato de um jovem que, quando era um menino de 9 anos, voltou de cueca para o Setor Norte Ferroviário, a pé, após ter suas roupas retidas no Ginásio Rio Vermelho, no Centro, onde passou pela medição do nível de radiação. Em entrevista ao jornal O Popular, veiculada há mais de dez anos, ele relembrou o trauma e afirmou que houve um cuidado com as vestes, mas não com ele.
Outro ponto da ficção que a jornalista comentou foi uma cena que mostra a revolta dos pacientes contaminados quando ficaram no isolamento e, inclusive, a suposta fuga de um deles, afirmando crer que foi uma dose exagerada que a série teve por que a pesquisadora não coletou relatos sobre isso. “Até onde eu sei, não foi bem assim”, diz ela.
Entretanto, pessoas que conviveram com algumas das vítimas, e jornalistas que conheceram os principais protagonistas, como os funcionários do ferro velho, citam episódios de grande rebeldia e fuga de várias unidades de saúde, tanto no período mais próximo do acidente, quanto nos anos subsequentes. Isso ocorria exatamente porque eles se sentiam discriminados nesses espaços, longe de parentes, e não recebiam informações claras sobre o tratamento, o estado de saúde e as sequelas que teriam.
Autora do livro “Césio-137 – os tons de um acidente”, Tristão também comenta o fato de que crianças das famílias atingidas foram tratadas em Cuba. Na verdade, cerca de 50 pessoas passaram por esse tratamento na época, sendo 34 crianças e os demais jovens e adultos.
Ajuda de Fidel Castro
A iniciativa ocorreu em agosto de 1992, cinco anos após o acidente, por meio de um convênio de cooperação médica gratuito oferecido pelo então presidente cubano, Fidel Castro. Antes, Castro já tinha enviado um biofísico do Centro de Proteção Radiológica de Cuba para ajudar no tratamento das vítimas no Brasil com base na experiencia cubana no tratamento de crianças ucranianas afetas pelo desastre em Chernobyl. Isso foi depois que o presidente cubano veio para a famosa ECO-92 e pediu para conhecer a então presidente da Associação das Vítimas, Terezinha Nunes Fabiano.
Como mostrou o DG, a série foi muito criticada por algumas das vítimas que ainda residem em Goiás pela forma como seus parentes e amigos foram descritos, assim como os fatos ocorridos, culminando em mais discriminação no entendimento delas. Um dos motivos é o grande alcance da produção. No dia 26 de março, o DG mostrou que a minissérie já tinha alcançado 3,8 bilhões de visualizações e entrado no ranking das 10 produções mais assistidas da plataforma no mundo.
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