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entenda relação da cor com o Candomblé

Para quem vê de fora, a troca de uma beca preta por uma branca pode parecer apenas uma mudança no traje tradicional de uma formatura. Para a estudante de Relações Internacionais Lethícia Lima, de 22 anos, porém, a cor da roupa está ligada a um compromisso religioso assumido durante sua iniciação no Candomblé. Em entrevista ao Mais Goiás, ela explicou os motivos que a levam a precisar manter a vestimenta branca durante o período de resguardo.

Lethícia foi iniciada na religião em maio deste ano e, desde então, vive o chamado preceito iniciático, período de resguardo que, no caso dela, dura um ano. Entre as obrigações está o uso exclusivo de roupas brancas, além de determinações relacionadas à alimentação, ao comportamento e a outros cuidados com a vida espiritual.

É por causa desse compromisso que a estudante precisa manter a roupa branca também durante a formatura, marcada para o dia 28 de julho, em Brasília. “Durante o preceito, ele faz parte das obrigações religiosas que assumimos na iniciação e simboliza esse período de pureza, proteção, paz e resguardo espiritual”, explica.

Da iniciação ao resguardo no Candomblé

Antes de ser iniciada, Lethícia era uma àbìyàn, pessoa que frequentava o terreiro, participava da comunidade e aprendia os fundamentos da religião. Em maio deste ano, passou pelo ritual de iniciação e se tornou uma ìyàwó, como são chamadas as pessoas recém-iniciadas no Candomblé.

A iniciação representa, dentro da religião, uma mudança na trajetória espiritual e o aprofundamento dos vínculos com a comunidade e com o Òrìṣà, divindade cultuada pelo iniciado. A tradição à qual a estudante pertence também é vinculada ao Ìlé Àṣẹ, expressão usada para se referir à casa ou comunidade religiosa.

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“A iniciação no Candomblé é um dos momentos mais importantes da vida religiosa de uma pessoa. É quando deixamos de ser apenas participantes da comunidade e assumimos, de forma plena, o compromisso com nosso Òrìṣà e com a tradição do Ìlé Àṣẹ”, explica.

O rito é compreendido como um renascimento espiritual e marca uma transformação na relação do iniciado com a própria fé e com a comunidade. “É como se uma nova vida estivesse começando. Por isso, a iniciação não é vista apenas como uma cerimônia, mas como uma transformação profunda na relação da pessoa com sua espiritualidade, seu Òrìṣà e sua comunidade religiosa”, afirma.

Após a iniciação, começa o chamado preceito iniciático. Esse período de resguardo envolve disciplina, aprendizado e obrigações religiosas específicas. A duração e as regras podem variar conforme a tradição seguida e as orientações de cada terreiro.

Uso de roupa branca durante período de resguardo religioso motivou pedido judicial (Foto: Agência Brasil)

No caso de Lethícia, essa etapa dura um ano e inclui determinações relacionadas à vestimenta, alimentação, comportamento e outros cuidados. “Essas obrigações não existem para restringir a vida da pessoa, mas para protegê-la durante esse novo ciclo espiritual”, afirma.

Por que o branco é obrigatório?

O uso do branco integra as obrigações assumidas durante a iniciação e está relacionado aos significados atribuídos ao período de resguardo, como pureza, proteção e paz. “Por isso, o uso da roupa branca, por exemplo, não é uma preferência pessoal nem uma escolha estética. Durante o preceito, ele faz parte das obrigações religiosas que assumimos na iniciação”, explica.

Como a vestimenta faz parte das obrigações dessa etapa, a estudante afirma que não é possível interromper o compromisso temporariamente para atender a uma situação específica, como uma cerimônia. “Não posso simplesmente suspender o preceito por algumas horas para participar de uma cerimônia”, afirma.

O período, no entanto, não é permanente. Trata-se de uma etapa específica da iniciação e tem duração determinada.

Mulher exibe capelo branco em imagem meramente ilustrativa sobre caso de estudante de Goiás que vai se formar de beca branca por respeito ao Candomblé
(Imagem ilustrativa produzida por edição digital sobre foto de banco de imagens: Magnific/reprodução | Edição Mais Goiás)

A experiência também levou Lethícia a refletir sobre a forma como as obrigações religiosas são compreendidas fora das comunidades de fé. Para ela, práticas como as que segue não devem ser tratadas como simples costumes ou preferências individuais, mas como parte da vivência religiosa de quem as pratica. “Para quem vive essa religião, nossos preceitos fazem parte de um compromisso espiritual profundo. Não são simplesmente costumes ou escolhas pessoais que podem ser flexibilizados a qualquer momento”, diz.

A estudante espera que o caso contribua para ampliar a compreensão sobre o Candomblé e sobre o direito de seus praticantes viverem a própria fé. “Gostaria que as pessoas compreendessem que o Candomblé é uma religião séria, com fundamentos, liturgias e compromissos tão legítimos quanto os de qualquer outra tradição religiosa”, afirma.

Para Lethícia, esse respeito deve valer para diferentes crenças e manifestações religiosas. “Uma sociedade verdadeiramente democrática não exige que as pessoas escolham entre sua fé e seus direitos. Ela cria condições para que ambas possam coexistir com respeito.”

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