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Conheça a cruz de Chico Mineiro no Caminho de Cora Coralina

Há um momento em que o Caminho de Cora Coralina parece deixar de ser apenas uma trilha. Perto da chegada à cidade de Goiás, entre estradas de terra, pastagens e as ruínas de um antigo arraial do ciclo do ouro, uma cruz de madeira interrompe a paisagem. Cercada por flores e protegida por uma pequena cerca, ela convida o visitante a desacelerar.

Para quem conhece a velha moda de viola, aquele não é apenas um cruzeiro perdido no Cerrado. É a Cruz de Chico Mineiro, nome popular de Francisco Ribeiro, personagem imortalizado por Tonico e Tinoco em uma das canções consideradas mais importantes da música sertaneja de raiz.

O local voltou a chamar atenção após um vídeo publicado na semana passada pelo influenciador Marcos Silva, que percorreu o Caminho de Cora Coralina e apresentou aos seguidores um dos pontos mais simbólicos da rota turística goiana (assista ao vídeo abaixo).

“Chico Mineiro foi baleado a mais ou menos um quilômetro daqui, nas ruínas de Ouro Fino. Pegou seu cavalo, baleado, veio cavalgando e caiu nesse local [cruz]. Quando vieram caçar ele, o acharam sem vida. Há uma cruz onde até hoje o pessoal deixa flores, acende velas, onde o boiadeiro caiu morto”, relata Marcos no vídeo.

Registros da tradição popular apontam que Chico Mineiro foi baleado em 27 de maio de 1925, após ser perseguido de Minas Gerais até Goiás por pistoleiros que o juraram de morte por causa de uma mulher.

A cruz está localizada dentro de uma propriedade particular, na região de Calcilândia, próximo às ruínas do antigo Arraial de Ouro Fino. O ponto é reconhecido pelo Governo de Goiás como parte dos atrativos históricos do Caminho de Cora Coralina e integra o inventário turístico elaborado pela Goiás Turismo.  

Personagem que atravessou gerações

Lançada em 1946, “Chico Mineiro” se tornou o primeiro grande sucesso nacional da dupla Tonico e Tinoco e ajudou a consolidar a moda de viola como uma das principais expressões da cultura popular brasileira.  

Na canção, dois boiadeiros viajam pelo sertão goiano para negociar gado durante uma Festa do Divino. A viagem termina de forma trágica quando Chico Mineiro é morto. Somente depois, ao conferir os documentos do companheiro, o narrador descobre que os dois eram irmãos, separados pela vida sem jamais terem sabido disso.  

Entre história e tradição oral, o personagem acabou incorporado ao imaginário goiano. O inventário da Goiás Turismo aponta Ouro Fino como o cenário da narrativa que inspirou a música, tornando a cruz um lugar de memória para visitantes, violeiros e peregrinos do Caminho de Cora Coralina.

Onde o ouro encontrou a viola

Muito antes de a música existir, Ouro Fino já ocupava um capítulo importante da história de Goiás.

Fundado em 1727 por Bartolomeu Bueno da Silva Filho durante a corrida do ouro, o arraial foi um dos primeiros povoamentos do estado. Com o esgotamento da mineração, acabou sendo abandonado, restando apenas vestígios das construções que marcaram o início da ocupação da região.  

Hoje, quem visita o local encontra alicerces cobertos pelo capim, restos de paredes de taipa e as ruínas da antiga Igreja de Nossa Senhora do Pilar. O silêncio contrasta com a importância histórica daquele chão, que já reuniu garimpeiros, tropeiros e viajantes em busca de ouro.  

Em 2021, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) anunciou obras de estabilização das ruínas para preservar o sítio arqueológico e integrá-lo de forma definitiva ao Caminho de Cora Coralina.  

Caminho de Cora

Com cerca de 300 quilômetros, o Caminho de Cora Coralina liga Corumbá de Goiás à cidade de Goiás, atravessando oito municípios, antigos povoados, fazendas históricas e áreas preservadas do Cerrado.

O roteiro foi concebido para reunir patrimônio histórico, natureza, gastronomia e literatura, inspirado nos caminhos percorridos por viajantes desde o século XVIII e na obra da poeta vilaboense Cora Coralina.  

Não por acaso, Ouro Fino aparece como uma das últimas grandes paradas antes da chegada à antiga Vila Boa.

Ali, a poesia de Cora encontra a memória do ciclo do ouro. E, alguns metros adiante, a velha cruz lembra que Goiás também guarda histórias que sobreviveram não apenas nos livros, mas nas canções.

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