A Paróquia Catedral de Sant’Ana, em Goiás, anunciou a realização da tradicional Procissão dos Penitentes, também conhecida como Procissão das Almas, que integra a programação oficial da Semana Santa de 2026 no município. O cortejo religioso está marcado para quinta-feira, 2 de abril, com início às 23h30, e segue pelas ruas históricas da antiga Vila Boa até a madrugada da Sexta-Feira Santa, preservando um dos rituais mais antigos e simbólicos da religiosidade popular local.
Foto: Karina Carvalho
Diferente das celebrações mais populares, o cortejo acontece longe dos holofotes. Ele se move lentamente por becos escuros e antigos, embalado por ladainhas fúnebres e cânticos de misericórdia. O clima é de recolhimento. Além disso, o horário incomum reforça o caráter introspectivo da cerimônia, que atravessa a madrugada e só se encerra já na Sexta-Feira Santa, dia tradicionalmente marcado pelo luto cristão.
Um percurso de fé, silêncio e simbolismo na Procissão dos Penitentes
A procissão tem início na Igreja São Francisco de Paula e percorre outros pontos históricos da antiga Vila Boa, como a Igreja do Carmo, a Igreja do Rosário, a antiga sala de velório da Santa Luzia, a Igreja D’Abadia e o local conhecido como antigo campo da forca. Ao todo, são sete paradas, número que simboliza as Sete Dores de Nossa Senhora.
Foto: Karina Carvalho
Vestidos de branco e com os rostos cobertos por capuzes, os penitentes caminham em silêncio, ajoelham-se diante das igrejas e pedem misericórdia pelas almas dos fiéis defuntos. Em cada parada, há momentos de oração coletiva, reforçando o caráter comunitário e espiritual do ritual.
O trajeto termina no Cemitério São Miguel Arcanjo, já na madrugada, cumprindo a tradição de que a procissão não ultrapasse o amanhecer da Sexta-Feira da Paixão.
Foto: Karina Carvalho
Origem europeia e identidade goiana
Segundo o professor e pesquisador em Ciências da Religião Rafael Lino Rosa, a Procissão dos Penitentes tem origem na Europa medieval, logo após a peste negra. Naquele contexto, homens e mulheres realizavam atos de penitência como forma de interceder pelas almas do purgatório.
Foto: Karina Carvalho
“No Brasil, essa tradição chegou às cidades do ciclo do ouro por volta de 1700, como Goiás, Ouro Preto, Mariana e Diamantina. Com o tempo, o ritual europeu ibérico ganhou traços próprios, incorporando elementos da goianidade e da religiosidade popular brasileira”, explica o pesquisador.
Foto: Karina Carvalho
Lendas que atravessam gerações
Além do aspecto religioso, a Procissão dos Penitentes é cercada por lendas que alimentam o imaginário popular. A mais conhecida conta que, certa vez, um encapuzado entregou uma vela a uma mulher conhecida por passar o tempo observando e comentando a vida alheia. Na semana seguinte, ao devolver a vela, ela encontrou em seu lugar um osso humano — episódio interpretado como um castigo simbólico.
Foto: Karina Carvalho
Outra crença popular diz que quem participa da procissão deve fazê-lo por, no mínimo, sete anos consecutivos, assim como aqueles que rezam durante o percurso precisam repetir as orações sete vezes. Verdade ou mito, essas histórias ajudam a manter viva a aura de mistério que envolve o cortejo.
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Ao atravessar séculos, a Procissão dos Penitentes segue como um dos rituais mais intensos e silenciosos da Semana Santa goiana. Mais do que uma celebração religiosa, ela é um mergulho na memória, na fé e nas tradições que moldam a identidade cultural da Cidade de Goiás.
Foto: Karina Carvalho
Serviço
Procissão dos Penitentes (ou das Almas)
– Data: Quinta-feira, 2 de abril de 2026
– Horário: 23h30 (segue até a madrugada de sexta-feira)
– Início: Igreja São Francisco de Paula
– Encerramento: Cemitério São Miguel Arcanjo
– Entrada: Gratuita
– Recomenda-se respeito ao silêncio e à tradição religiosa