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Hospital de Anápolis usava furadeiras domésticas em cirurgias

O Hospital Municipal Alfredo Abrahão (HMAA), em Anápolis, utilizava furadeiras e perfuradoras de uso doméstico adaptadas durante cirurgias ortopédicas. A prática foi identificada em fiscalizações da Vigilância Sanitária de Anápolis (Visa) e, diante da reincidência, levou o Ministério Público de Goiás (MPGO) a recomendar a suspensão completa do uso desses equipamentos na unidade. Em relatório elaborado em fevereiro de 2026, a Vigilância Sanitária classificou a situação como uma “não conformidade recorrente, reiterada e de alto risco” e determinou a interrupção imediata do uso dos equipamentos.

A recomendação foi expedida pela 9ª Promotoria de Justiça de Anápolis à Fundação Universitária Evangélica (Funev), organização social responsável pela gestão do hospital. O documento foi assinado pelo promotor de Justiça Marcelo de Freitas. A informação foi divulgada pelo próprio MPGO na quinta-feira (3).

Em nota enviada ao Mais Goiás, a Funev afirmou que os equipamentos utilizados pela unidade possuem blindagem destinada a permitir os processos de limpeza e desinfecção e que, portanto, não se tratam de ferramentas domésticas utilizadas nas mesmas condições em que são comercializadas para uso convencional. Apesar disso, a entidade informou que adotou medidas para substituir os equipamentos e prevê que os novos aparelhos estejam disponíveis para utilização em até 30 dias. (Leia a nota completa ao final da matéria)

Fiscalizações apontaram uso recorrente

O caso passou a ser apurado pelo MPGO após relatórios de inspeção da Vigilância Sanitária apontarem que ferramentas de uso doméstico estavam sendo utilizadas durante procedimentos ortopédicos. As fiscalizações ocorreram entre 2022 e 2026 e, segundo o Ministério Público, demonstraram que a situação não era pontual.

Durante as inspeções, a Vigilância Sanitária chegou a apreender 11 perfuradoras supostamente utilizadas nas cirurgias, por considerar que os instrumentos apresentavam alto risco sanitário. De acordo com o inquérito civil, posteriormente também houve violação dos lacres colocados nos equipamentos apreendidos.

Furadeiras eram adaptadas para os procedimentos

Em reunião com a Promotoria de Justiça, o diretor executivo da Funev confirmou que o hospital utilizava furadeiras domésticas adaptadas nos procedimentos. Segundo ele, a prática estava relacionada ao custo elevado das furadeiras pneumáticas próprias para uso cirúrgico e à necessidade constante de manutenção desses equipamentos.

A Funev também informou que a equipe médica de ortopedia apresentou, durante as discussões sobre o caso, ponderações técnicas sobre a utilização das furadeiras pneumáticas. Segundo a entidade, os profissionais relataram que esses equipamentos apresentam maior fragilidade em determinados procedimentos, com elevada incidência de avarias e necessidade recorrente de manutenção.

Para o Ministério Público, porém, essas justificativas não afastam os riscos envolvidos. A recomendação cita uma nota técnica da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), segundo a qual equipamentos domésticos não foram desenvolvidos para funcionar como produtos médicos.

A esterilização dos equipamentos também foi apontada como um fator de risco. Conforme a documentação citada pelo MPGO, ferramentas de uso doméstico não podem ser adequadamente esterilizadas para utilização em procedimentos cirúrgicos, o que pode aumentar o possibilidade de infecções nos pacientes.

A Funev, por sua vez, afirma que os equipamentos utilizados pelo hospital “possuem blindagem destinada a permitir os processos de limpeza e desinfecção, não se tratando, portanto, da utilização de ferramentas domésticas nas mesmas condições em que são comercializadas para uso convencional”.

Funev terá prazo para apresentar plano

A Promotoria recomendou que a Funev cesse completamente o uso das furadeiras domésticas e perfuradoras e passe a utilizar equipamentos cirúrgicos específicos nos procedimentos ortopédicos realizados no hospital. A partir do recebimento da recomendação, a Funev terá dez dias úteis para apresentar à 9ª Promotoria de Justiça de Anápolis um plano de ação para corrigir a situação. A execução das medidas deverá ocorrer em, no máximo, 90 dias. A entidade também terá três dias úteis para informar, por escrito, se irá ou não cumprir a recomendação.

Caso a medida não seja atendida ou não haja resposta dentro do prazo, o Ministério Público poderá recorrer à Justiça para buscar a suspensão da prática.

Segundo a Funev, as providências para a substituição dos equipamentos já haviam sido iniciadas antes da recomendação. A entidade informou que uma solicitação de investimento foi protocolada em 26 de junho de 2025 e que o processo de cotação foi atualizado em 18 de agosto de 2026.

Ainda de acordo com a gestão, os processos estão em fase final de conclusão e a previsão é de que os novos equipamentos estejam disponíveis para utilização em até 30 dias.

Leia a nota da Funev na íntegra

“O Hospital Municipal Alfredo Abrahão (HMAA) esclarece que, conforme informado pelo Ministério Público de Goiás (MPGO), foram realizadas reuniões entre a Promotoria de Justiça e a gestão da unidade para discussão da utilização de equipamentos elétricos em procedimentos ortopédicos e definição de um cronograma para aquisição de novos equipamentos perfuradores modelo pneumático.

A gestão esclarece que os equipamentos utilizados pela unidade possuem blindagem destinada a permitir os processos de limpeza e desinfecção, não se tratando, portanto, da utilização de ferramentas domésticas nas mesmas condições em que são comercializadas para uso convencional.

Durante as tratativas, foram apresentadas também as ponderações da equipe médica de ortopedia, que possui experiência cotidiana na realização de procedimentos de trauma. Segundo avaliação desses profissionais, modelos de furadeiras pneumáticas apresentam maior fragilidade durante determinados procedimentos, com elevada incidência de avarias e necessidade recorrente de manutenção.

Há, portanto, aspectos técnicos e assistenciais que foram apresentados e discutidos pela gestão da unidade durante a reunião.

Ainda assim, considerando as ponderações da Vigilância Sanitária quanto à necessidade de utilização integral de equipamentos pneumáticos, o HMAA definiu, nas tratativas realizadas com o Ministério Público, a adoção das providências necessárias para substituição dos equipamentos.

As medidas para essa aquisição, inclusive, antecedem a recomendação. Houve solicitação de investimento protocolada em 26 de junho de 2025 e, posteriormente, renovação da instrução do processo de cotação em 18 de agosto de 2026, além de solicitação, na mesma data, para viabilização da aquisição por meio de recursos de custeio.

Os processos encontram-se atualmente em fase final de conclusão e a previsão é de que os novos equipamentos estejam disponíveis para utilização no prazo de até 30 dias, conforme anteriormente discutido com o Ministério Público.

O HMAA destaca ainda que é unidade de referência no atendimento ao trauma, realizando regularmente cirurgias ortopédicas de diferentes níveis de complexidade, com elevados índices de resolutividade e baixa incidência de infecção nos procedimentos realizados.

A gestão do Hospital reafirma seu compromisso com a segurança dos pacientes, com a qualidade da assistência e com o permanente aprimoramento de seus processos, mantendo postura de diálogo e cooperação com a Vigilância Sanitária, o Ministério Público e os demais órgãos de fiscalização e controle. com a Vigilância Sanitária, o Ministério Público e os demais órgãos de fiscalização e controle.”

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