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O rompimento da tornozeleira de Bolsonaro e as teorias da estupidez de Cipolla e Bonhoeffer


Ao romper tornozeleira, Bolsonaro causou dano para sí próprio e o caso pode ser analisado pela Teoria da Estupidez

O agressão violenta de Jair Bolsonaro contra a tornozeleira eletrônica não é apenas um fato jurídico, nem um deslize técnico. O episódio abre uma porta para compreender o tipo de comportamento político que ainda estrutura parte da vida pública brasileira.

Utilizar a literatura sobre aestupidez humana, por incrível que pareça, é muito útil para anlisar o caso. Carlo Cipolla e e Dietrich Bonhoeffer (A Teoria da Estupidez), cada um à sua maneira, oferecem uma lente para entender por que um ato aparentemente simples se transforma em nova onda de tensão institucional.

O italiano Cipolla, com seu clássico ensaio “As Leis Fundamentais da Estupidez Humana”, de 1976, explica que o estúpido é aquele que causa prejuízo a terceiros sem obter vantagem própria. Não se trata de ofensa; é uma forma de análise. E, quando observamos o rompimento da tornozeleira, o padrão aparece sem nenhum esforço: consumo de recursos públicos, confusão política, execução de prisão e complicações jurídicas.

Não há nenhum benefício real ao autor do atentado à tornozeleira. Ao contrário: amplia sua dificuldade jurídica, fragiliza sua própria base de argumentação e intensifica a leitura de que ele não tem capacidade de cumprir determinações legais. Ou, simplesmente, seguir regras. Cipolla classificaria o gesto como comportamento estúpido puro, aquele que produz prejuízo distribuído e vantagem zero.

E há mais. Sua quarta lei sustenta que os individuos racionais sempre subestimam o poder destrutivo da estupidez. Aqui está o ponto crítico: um ato aparentemente banal desencadeia uma corrida institucional. Mobiliza forças de segurança, pressiona tribunais, alimenta versões fantasiosas e eleva o tom de confronto político. Nada disso evidencia ato calculado e justamente por isso é tão perigoso.

Mas Cipolla explica apenas o ato isolado. Para entender a reação, é preciso mudar de autor e de referencial teórico.

O alemão Bonhoeffer, preso e morto pelo nazismo, escreveu que a estupidez coletiva é fenômeno social de alta periculosidade. O estúpido moral, como ele define, não reconhece argumentos. Ele substitui pensamento por lealdade, análise por emoção, racionalidade por pertencimento.

E essa é a chave para compreender por que parte da base bolsonarista adotou defesas automáticas do episódio da tornozeleira e mudança do domicílio da prisão de Bolsonaro. Não importam as contradições internas das versões; importa o reflexo imediato de proteger o líder. Tecnicismos sobre tornozeleiras, teorias improvisadas, acusações difusas contra instituições. Tudo isso compôs a coreografia típica descrita por Bonhoeffer.

Em vez de interpretar a realidade, busca-se proteger uma identidade política. É como se o fato se tornasse irrelevante. Sobra apenas o instinto de repetição.

Assim, Cipolla ilumina o comportamento individual irracional. Bonhoeffer explica a prontidão coletiva para defendê-lo, mesmo sem coerência. É a combinação dessas duas camadas que transforma o episódio da tornozeleira em um sintoma político mais profundo.

O caso revela algo desconfortável: a política brasileira ainda está organizada num ambiente em que erros individuais — alguns deliberados, outros impulsivos — ganham dimensões exageradas porque a reação coletiva abandona o raciocínio. A lealdade emocional opera como última instância, e não o julgamento crítico.

Essa convergência entre atos sem cálculo e massas sem reflexão produz um terreno fértil para instabilidade. E é justamente esse o ponto de Bonhoeffer: a estupidez não é uma falha intelectual, mas uma captura emocional que bloqueia a capacidade de discernir.

Quando esse bloqueio se torna parte do jogo político, o risco ultrapassa o personagem. Ele atinge as instituições, que precisam responder a gestos imprevisíveis amplificados por reações previsivelmente irracionais.

Por isso, o rompimento da tornozeleira não é episódico. É pedagógico. Mostra que a inteligência — no sentido coletivo — ainda é um recurso escasso para boa parte dos atores da política brasileira. E mostra, sobretudo, que Cipolla e Bonhoeffer continuam descrevendo com precisão os elementos que degradam a vida pública: os atores e seus atos estúpidos.

Altair Tavares

Editor e administrador do Diário de Goiás. Repórter e comentarista de política e vários outros assuntos. Pós-graduado em Administração Estratégica de Marketing e em Cinema. Professor da área de comunicação. Para contato: altairtavares@diariodegoias.com.br .

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